domingo, 28 de dezembro de 2014

Mães


Mães são difíceis. Isso é fato. Às vezes elas passam um trator por cima de nós em nome da nossa própria felicidade. Vá entender. Mas o que seria de nós sem elas? e o que seria de mim sem aquele poema dificílimo que minha mãe me fez decorar quando eu tinha cinco anos? o que seria de mim sem as fantasias de baiana, de bailarina, de cigana? os vestidos da Quadra 5? sem o olhar corretor sobre meus poemas? sem o Cozido espetacular nas noites de junho?
Para terminar, então, vou retroceder algumas (muitas) décadas e chegar até o  meu primeiro dia de aula na Escola Vitória, quando eu, com passos firmes, entrei sem uma lágrima sequer, vestida com aquele tradicional uniforme xadrezinho,  o nome gravado no bolso.
No meu colo, tão feliz quanto eu, minha boneca preferida trajava também um uniforme idêntico, com o nome dela, Taíssa, também bordado no bolso, as letras perfeitas, com aquele capricho que só as mães sabem ter.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014


Éramos seis


Estou enrolando para escrever esta derradeira história. E quando eu digo derradeira eu não quero dizer que seja a última, mas é a que fecha um ciclo da infância, quando éramos seis em volta de uma árvore presa na parede, cheia de bolas e enfeites que quebravam e luzes que piscavam; em torno de uma mesa, na copa, com as iguarias que "só a minha mãe sabe fazer". Nesta época nós éramos seis dentro de uma Rural branca e azul passeando por todas as praias, todos os parques e todos os museus do Rio de Janeiro. E quem mais no mundo teve um pai chamado Urbano que dirigia uma Rural? 
Não quero com isso dizer que a vida era maravilhosa. Não era. Mas éramos seis a tentar se acertar. Eu sei que só existem os paraísos perdidos. Eu sei que algumas cenas são senhas para a gente crescer, como me ensinou a minha amiga Ana Vera,  então vamos lá. 
O ano? 1979. Era Natal e chovia. Não sei até hoje porque meu pai não comprou nenhum presente de natal para nós, naquele ano. Minha mãe remediou a situação e providenciou o que foi possível. Eu ganhei uma boneca vestida de enfermeira, com estetoscópio, termômetro, injeção. Bem a calhar para enfrentar uma situação doentia. Meu pai ficou deitado no sofá, mas eu lembro que ela foi até ele e entregou, como um pedido de trégua, um pacote de presente, que ele agradeceu, com uma calça azul clara. Entramos 1980 com a separação efetuada. Vai então, se não me falha a memória, o último trecho do romance Éramos seis, da Maria José Dupré: "Grossas gotas de chuva caem do céu sobre a terra, sobre os telhados cor de cinza. Solidão."

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

 Palavras, palavras


Por estes dias de fim de ano eu parei para pensar nas palavras que só tem existência  em um contexto específico. Como, por exemplo, "próspero". Todo mundo deseja um próspero ano novo, nunca um próspero natal. Para natal não encaixa o "próspero", mas os adjetivos "feliz" e "bom", ou mesmo a expressão "cheio de paz". 
É como o "Açaí na tigela", por que ninguém come açaí na cumbuca? no pote? na travessa? Açaí é sempre na tigela.
Então vamos lá, Natal, para mim, combina com miríades e chávenas; com veludos e ósculos; inflorescências e baluartes, proscénios e saudades-perpétuas. 
Neste Natal, eu desejo votos de muito júbilo
e que você possa adjungir o que vai disperso pelo mundo: a vontade de ser feliz com o outro, para o outro (entenda o outro como o próximo), sem ficar conectado o tempo todo no inútil, enquanto o importante mesmo se esvai. 
Há alguns anos, talvez seja este o x da questão,  passei um natal com a família, gente difícil de encontrar para quem, como eu, mora no Mato Grosso. Ficamos todos na sala da casa da minha mãe, cada um vidrado no seu computador, tablet, celular... sem nem sequer uma palavra de conforto, de júbilo. Tudo perdido nas miríades de fios que se espalhavam, como serpentes, no espaço da minha solidão.

domingo, 14 de dezembro de 2014


Perdão, pai 
Não existe Natal sem frutas. Na minha infância, as ceias não ficavam completas sem abacaxi (com um pouco de vinho e açúcar); melancia, pêssegos e uma caixinha de uva niágara para enfeitar a mesa. Tudo simples, mas para nós era um banquete. Naquele tempo, a lichia, por quem sou apaixonadíssima, não existia no Brasil, mas é pensando nela que eu quero escrever menos uma história que um pedido de desculpas. Há alguns anos atrás, fomos visitar meu pai em Rio Novo, durante as festas. Eu, o Marcos, a Amanda e o Ivan. O carro estava lotado de bagagem porque viajar com crianças não é mole não. É edredon; é nebulizador, é boneca, é brinquedo, é colchonete... um deus nos acuda de tanta tranqueira necessária. No dia da partida, além de tudo aquilo e mais dois quadros enormes que meu pai mandou fazer para a gente (e que eu guardo com muito carinho porque me ensinam como ele podia ser carinhoso à maneira dele), veio o último presente: dois pés de lichia plantados em duas latas, mas já criados, coisa grande feito amor de mãe (ou de pai). Segundo fui informada, minha irmã Cristina disse para o meu pai que eu queria muito um pé de lichia. Ai meu Deus! Para tudo que eu quero descer! E lá fomos nós... imagina viajar mais de mil quilômetros sem poder mexer as pernas e com uma ramada verde entre você e o vidro. Não dava, gente. Eu bem que tentei. Antes de chegar em Juiz de Fora, eu pedi para parar o carro numa entrada de fazenda (Fazenda Santa Clara, se não me falha a memória) e então eu deixei as duas árvores lá, como quem deixa gêmeos na porta de alguém e vai embora com o coração em frangalhos sabendo que a vida nunca mais será a mesma depois daquele ato insano. A história não acaba aqui, no entanto. Daí para a frente, todas as vezes que falei com meu pai, por telefone ou ao vivo, ele me perguntou pelas lichias... e eu, covardemente, ia dizendo que elas iam bem, crescendo... desculpe pai, aí onde você estiver, eu menti por amor.
Tragédia de Natal 
Para quem é cardíaco ou não gosta de emoções fortes eu recomendo que interrompa a leitura. A cena é difícil. Aliás a diferença entre cena  e sumário é assunto pertinente para a teoria literária. O sumário faz um resumo dos fatos e a cena mostra a ação, o acontecimento. Vamos então começar pelo sumário. Nós moramos, por vários anos, no Catumbi, em um apartamento térreo. Nossas refeições eram feitas numa copa-varanda-área-de-serviço que ligava a cozinha a um pequeno jardim de cacos de cerâmica onde minha mãe cultivava suas plantas tão queridas. Essa copa era coberta por telhas tipo eternit transparentes e minha mãe sempre se aborrecia porque os vizinhos dos andares acima despejavam, sem muita cerimônia, todo tipo de porcaria em nosso telhado. Aliás, os anos 70 no Brasil produziram uma infinidade de dejetos que ainda hoje as comissões tentam esclarecer, mas isso é outra história. Ou é a mesma história, mas vista por outro ângulo. O fato é (agora entra a cena) que era Natal. E como eu já expliquei, sempre chove no Rio para atrapalhar a travessia do Papai Noel. Chovia torrencialmente (vamos transformar o espaço em ambiente) e no exato instante em que a minha mãe colocou a panela fumegante de Bacalhau à (moda) Gomes de Sá na mesa da copa, as telhas (será que eternit vem de eterno?) se romperam e uma cascata de água suja escorreu intrépida exatamente para dentro da panela. Ah... preciso dizer, num conto,  o clímax muitas vezes está colado ao desfecho. Então, é isso, se aguentou a cena, boa noite.

sábado, 13 de dezembro de 2014




Coisas de Natal

Olha, gente, eu preciso dizer uma coisa sobre mim que eu sempre tento esconder. É sobre as minhas escolhas. Quando estou diante do efêmero, do passadiço, dos itens de curta duração, já sei de antemão que vou errar. Tudo começou, se não me falha a memória, quando eu tinha onze anos e saí com minha mãe para comprar uma roupa para o Natal. Pegamos o ônibus e fomos para a Praça Saens Peña, no antigo Shopping 45,  numa loja do térreo. A vendedora apresentou como opção um macaquinho amarelo ouro com zíper na frente e eu saí da loja com o troço, achando que tinha feito uma compra legal. Para combinar, peguei emprestado um par de meias amarelas e azuis, da Cristina, que usei com a minha fantástica melissa furadinha. Não tenho uma foto daquela noite, mas ficou a sensação de que eu não dou mesmo para isso. Para completar, fui com o meu irmão Carlos até o Andaraí para buscar a namorada dele, Anna Lya. Como  acontece em todo Natal, no Rio, caiu o maior pé d'água e eu ainda escorreguei na lama. Fazer o quê? já tinha escorregado bem antes, no gosto. E estes pequenos tropeços, como uma sina, são partes da minha história...

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Algumas lembranças natalinas III


Nas minhas casas da infância sempre tivemos árvore de natal, mas nem sempre presépios. Talvez por isso eu tenha me deslumbrado com o imenso presépio da casa da Alexandra. A primeira vez que o vi foi no apartamento térreo da rua Sabará. Ele ocupava toda a extensão de um longo aparador estilo Luís XV que tinha sido da avó da Alexandra, minha amiga desde sempre. Parece que o início do presépio também seguia essa genealogia... algum lugar no interior do Rio, onde o avô era médico, quando a dona Zenith, mãe da Alexandra, era ainda uma menina feliz.
Voltemos ao presépio que era um deslumbre: tinha manjedoura, tinha reis magos, tinha pastores, árvores, camelos, elefantes, zebras, coqueiros, um lago feito de espelho com inúmeros patinhos nadando, flores e plantas ao redor e o personagem principal, gente desculpa, não era o menino Jesus, que só apareceria no dia 25 mesmo. O personagem principal era um p.o.r.q.u.i.n.h.o. Sim, mas não era qualquer leitão sem graça. O porquinho róseo era uma simpatia, um amor, uma coisa rica. O melhor porquinho de presépio de todos os tempos. Daí que a Carmem, amiga da casa, avisou sem cerimônia: eu vou roubar o porquinho... Deste dia em diante sempre havia alguém vigiando, cada um de nós virou sentinela de porquinho de presépio ameaçado, jurado de sequestro. Isso foi há muitos anos atrás, nunca soube se a Carmem levou a termo essa "presepada". Eu sei que o presépio ainda está lá e vai continuar mesmo depois de nós, guardando para si a multidão de admiradores que sempre existirá, com ou sem porquinho. Aliás, ele não está só lá, está também comigo, na melhor memória daqueles tempos.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Mensagem Natalina II


Eu me lembro de um Natal em Rio Preto quando eu era bem pequena. Vejo meu avô quebrando muitas castanhas naquela copa antiga da casa que era grande como um mundo a ser descoberto. Escuto, por detrás da densa névoa que tenta encobrir a memória, como uma chuva, a voz da minha mãe explicando para alguém: -A Sheila gosta de avelãs. A Sheila sou eu.
Depois de tantos anos, ainda hoje, nada nunca me fez procurar avelãs mais do que nozes ou castanhas, mas sendo alguém que prefere avelãs eu me tornei gente. E gente que tem preferências, é sabido. E sendo alguém eu aprendi que a gente se descobre pelo olhar do outro. Muito do que eu aprendi sobre mim veio de considerações de quem estava próximo de mim. Também em Rio Preto, em umas férias, quando eu tinha já dez anos, durante um lanche na casa da dona Clara, falei com meus primos sobre uns livros que tinha lido. Minha tia (agora sogra) disse para todos: gostaram da aula de literatura? E assim me fiz e assim me tornei. Professora de literatura, e que prefere avelãs.

domingo, 7 de dezembro de 2014


Mensagem de fim de ano

Olha aí um novo natal. Mais um. Menos um. Queria mesmo é lembrar das coisas que não posso esquecer. As árvores de natal da minha infância, feitas a muitas mãos como uma obra de arte interativa. O cheiro de boneca nova. A bola nova do Sergio que eu tinha de chutar para ele ser o goleiro. O sangue do diabo do estojo de química do Carlos. Os pedidos sempre descolados da Cristina, como foi aquele relógio de pulso feito de acrílico laranja. São tantos os pedacinhos deste mosaico natalino, pequenos gestos, coisas de família. O suco de vinho. As rabanadas. O tio Antenor lavando  louça na Heitor Carrilho, cantando um velho sucesso da Aracy de Almeida.
O pacote de presente embaixo da árvore que cada um ficava imaginando o que seria. E o que será, agora? O que será do Natal?
E olha eu aqui montando uma árvore enquanto o Dedé "ajeita" o meu presépio. E olha aí eu pensando num presente para a sobrinhada. Cada um como uma pequena parcela do cartão de natal que guardo comigo na memória, esta memória que não está pronta, que não é definitiva e que vai se recompondo a cada natal, fixando o tecido único que é a vida que formamos estando juntos, se juntos estivermos. As cenas. Os risos. O cheiro bom da comida. 



domingo, 30 de novembro de 2014

 "[...] Recebo o entardecer como uma  aurora, 
Como a antecipação do claro instante 
Em que enfim vou saber o que há lá fora:
 Lá fora, além das vistas derradeiras, 
Além da noite, além do céu distante 
Onde as constelações guardam fronteiras"
                                                                                                                                     ( Mário de Andrade/ Do soneto "Dia longo").




Último dia de Novembro:
se fui feliz
não me lembro.


mas como ser triste 
quando a gente assiste
ao desenrolar do tempo?

sábado, 29 de novembro de 2014

A Vida é preciosa:
não existe tempo diferente 
quando existe amor
Vida, vida, vasta vida
se eu me chamasse margarida
não mudava a ferida.

Vida, vida, vasta vida
sendo ana ou margarida
ficava a chaga.

mas se por astúcia
Maria Lúcia fosse a graça
a ferida virava pelúcia
e a dor cicatrizava.




quarta-feira, 19 de novembro de 2014


VIDA:
sequência de fatos e pessoas
que vão passando por nós,
fazendo parte e, de repente,
nos deixando sós.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

O que aprendi com meu pai 
Meu pai não é um homem  comum.  Também não é um pai comum.  Daí a dificuldade de falar dele ou de falar com ele. Meu pai me ensinou tantas coisas, mas teve de aprendê-las sozinho, sem uma mãe que cuidasse dele ou um pai que ajudasse nas lições de matemática. Mas ele nunca se queixou disso. Meu pai me ensinou sobre a lei da gravidade, sobre a reprodução dos ouriços, sobre a economia na idade média. Principalmente meu pai me ensinou a pesquisar, a ter curiosidade. Assim me fiz como eu sou. Indiretamente eu também aprendi a ter disposição com as crianças, a doar meu tempo para elas, se chover ou se fizer sol. No café da manhã ele sempre fazia para mim os bichinhos de massa de pão que eu pedisse. Irremediavelmente todos pareciam jacarés, sua especialidade, mas ele se esforçava para atender aos meus pedidos.
Sua linguagem era como ele, diferente: cabelo? Gafurina. Galinha: Penosa; Unidade de medida? Talagada. E todas as coisas pretas eram bretas. E o mundo corria conforme sua visão particular.
Eu conheci com ele todas as praias, todos os museus e todos os parques do Rio de Janeiro. Conheci também alguns restaurantes: o bacalhau da Lisboeta, as esfihas do centro da cidade, o frango do Rian e o Camarão à milanesa de um lugar que não me recordo mais, que ficou no passado, perdido. Agora ele está doente. Eu também estou. Porque para mim ele sempre foi forte e independente. Fragilizado, agora, mesmo assim se esforça para conversar comigo ao telefone e falar sobre o tempo. E pergunta para mim: você chega amanhã? Mesmo que eu esteja aqui tão longe!

Agora, passados dois anos de seu falecimento, continuo diariamente a me lembrar de seus ensinamentos, dos embróglios e das incontáveis passagens engraçadas ou mesmo inusitadas das quais participamos. O que me consola? Tenho certeza: ele está ensinando matemática para os anjos.
"Não morrem as flores, retornam ao invisível onde dormem as almas."


sábado, 20 de setembro de 2014

Demorei para entender que Deus é onde almejo chegar e o Diabo  é o que preciso vencer.


domingo, 7 de setembro de 2014







acerto o passo na caminhada, 
 sob o rosa da ramada: 
a sugestão das coisas belas

todas as vias paralelas
permanecem intocadas 
aos nossos olhos pequenos

ao fim da suposta estrada -
depois de muitas pegadas -
o rastro que percorremos.

sábado, 6 de setembro de 2014



O que é mais efêmero  que a florada do ipê branco?
que o primeiro encanto? que a voz do acalanto sumida no tempo?
  cada momento
   cada momento
   cada momento
entre o nascimento e os cabelos brancos.




quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Na secura - o viço do ipê -
alegria derramada na amargura:
este mim sem você.

domingo, 24 de agosto de 2014

Estou em casa.


                       
                                                                              Como é bom!

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

terça-feira, 22 de julho de 2014

Não me prendo em redes 
selfies, chats, paredes,
 correntes, intrigas.

Passo pelas tramas,
Quando sinto que me chamas.

É lá fora a vida.



segunda-feira, 21 de julho de 2014


    Blogs e diários: 
laços estreitos ou abismos insolúveis?  
                                                                                              Sheila Dias MACIEL 
                                                                                             
                                        

O escritor Elias Canetti admite que seria difícil levar adiante a sua produção se não escrevesse por vezes um diário ( cf. 2001, p.55). Além de Canetti, inúmeras pessoas confessam que a escrita periódica que se utiliza sobretudo de um material do cotidiano é uma necessidade e uma busca na seqüência da vida continuada. Se pensarmos nesta perspectiva, é a necessidade de anotar, de organizar o cotidiano e de narrar-se que está por trás, aparentemente, tanto da escrita tradicional em forma de diário quanto da contemporânea escrita de si em um espaço virtual.
Em primeira instância é a vontade de escrever que aproxima o escritor de diários do blogueiro. Cabe avaliarmos, portanto, a teoria clássica sobre os diários para compreendermos as relações entre ambos. Comparar, neste caso, exige cuidado, posto que o diário é uma forma narrativa dotada de estatuto próprio e com uma história de publicação consolidada. Trata-se de uma forma literária que tem nos diários de guerra e nos relatos de viagem sua forma ancestral, mas que começa a se fortalecer como gênero a partir do estabelecimento da sociedade burguesa e da difusão da noção de indivíduo, ou seja, quando, no Ocidente, o homem adquire a convicção histórica de sua existência. Aqui já começa a dificuldade em considerarmos os blogs como diários, visto que a curta história dos blogs ainda não está consolidada, apesar de vislumbrarmos seu fortalecimento vinculado à moda da exposição do "eu" e ao excesso de testemunhos que marcam a contemporaneidade e acabam por se tornar uma espécie de obstáculo para a História.
 Se, portanto, os diários surgem como um modo de fortalecimento histórico para o indivíduo, os blogs são uma forma de anti-história, ou melhor, uma conseqüência  do capitalismo tardio ou de consumo que nos encaminha para o desaparecimento do sentido de história e da fragmentação do tempo numa série de presentes perpétuos expostos à exaustão. A História estaria ameaçada pela superabundância de relatos.
Se através dos tempos os diários ficaram à margem da grande literatura, isto ocorreu, sobretudo, pela recepção cristalizada desta forma narrativa, ou seja, lia-se um diário de uma perspectiva única: a da verdade. Hoje cremos que não é o critério da verdade ou da relação com uma realidade extratextual reconhecível que deve apartar os diários das demais formas literárias ou servir de linha divisória para diários e blogs porque todo texto, independentemente do meio em que é publicado, trata-se de uma produção humana entrecortada de ficção. Além disso, tanto os blogs quanto os diários são uma resposta às grandes narrativas legitimadoras, formas que parecem não encontrar mais lugar na contemporaneidade, como defende J. F. Lyotard (1993, p.69).
 A periodicidade parece ser a única regra, ou seja, é preciso que o texto de diário contenha um caminhar apoiado no calendário, independentemente da possível construção desta aparência, que pode ser intrínseca à urdidura da ficção. A questão da periodicidade também está inclusa como característica da escrita de blogs, mas ao  tratarmos  de um conceito de periodicidade na rede, entra em jogo a idéia de atualização, já que os blogs são composições que precisam ser atualizadas, sobretudo diante dos comentários recebidos por outros navegantes que se aventurem pelas páginas expostas.
A questão que separa diários de blogs parece estar calcada tanto na idéia de texto final, já que um blog nunca fica pronto de fato e um diário publicado é um texto finalizado, quanto à recepção, que nos blogs ocorre quase simultaneamente, a interação é imediata.
 Apenas mais uma questão, além da menção à história consolidada do diário em face a história por ser construída dos blogs, mereceria vir à tona: a da publicação. Concebidos para serem uma espécie de "querido diário", os blogs têm como atrativo a facilidade de publicação, mas uma facilidade vinculada à inclusão do indivíduo na rede. O blog parece ser fruto de uma vivência específica, ou seja, trata-se de uma conseqüência da relação do indivíduo com a internet. Só escreve um blog quem tem acesso à internet, entra em um gerador de blogs, cadastra-se, concorda com os termos de participação apresentados, cria um nome de usuário e uma senha, preenche um formulário com seus dados, escreve, volta à página do gerador, digita seu nome de usuário e senha... preenche os passos exigidos.
No universo de interrogações formado pela comparação, podemos dizer que o diário é regido por um estatuto próprio que o caracteriza e o identifica como um gênero, enquanto que o blog ainda tem um estatuto para ser construído, mas os dois podem ser vistos como uma forma de relato, escrito retrospectivamente, em que um eu, com vida extratextual comprovada ou não, anota/digita, de uma maneira fracionada, um conteúdo muito variável, mas que singulariza e revela este eu-narrador,  para  que, de alguma maneira, obtenha o reconhecimento de sua existência.
 Segundo Laura Freixas, o diário é uma reflexão em primeira pessoa, enraizada na cotidianidade, sobre a condição humana e o sentido da vida  (1989:12). Reflexão permeada de sentido quando nos damos conta do desaparecimento do sentimento da história e da transformação da realidade em imagens. Se o diário sempre foi visto como uma marca  testemunhal, os blogs parecem ser escritos da perspectiva menos do testemunho que da exposição: 

"Não parece difícil concordar com a idéia de que, no ciberespaço, é possível assumir as mais variadas identidades: sexuais, religiosas, ideológicas, etc.  Na verdade, essas diferenças deixam de existir, pois não determinam as relações. Uma utopia igualitária viabilizada por uma suposta democracia digital. Mas essa completa indistinção já é, ela própria, uma proposta totalizadora" (PENA, 2004, p.78)

Conforme podemos avaliar, os blogs, dentro deste universo de cibercultura, são uma resposta em negativo da escrita de uma identidade, se a concebermos  como forma de reconhecimento do indivíduo. Em muitos casos, trata-se mais de uma exposição de um indivíduo mediada pela noção de espetáculo, "carregada de imagens preconcebidas, facilitando ainda mais a sedução" (PENA,2004, p.21). Sobretudo porque não pode haver testemunho onde não há identidade.
 Essas distinções, no entanto, são generalizações. Tanto a forma consagrada dos diários pode comportar textos escritos apenas para a exibição de si mesmo, sem "o salto proustiano para o universal" (PERRONE-MOISÉS,1998, p.178) quanto o texto exposto num blog pode conter  reflexões singularizadas de um "eu" em que o apuro da linguagem leva à idéia de arte.  Ao nos voltarmos para estas formas específicas, portanto, é nosso intuito não manter as distinções como foco principal, mas abrir espaço para um diálogo que se realize na História.


 O perene e o efêmero

                                             Quanto tempo duram as obras?
Tanto quanto ainda não estão completas.
Pois enquanto exigem trabalho, não entram em decadência.
                                  Bertold Brechet                                                              

Sobre a  permanência dos diários e blogs cabe tomarmos uma questão central: a do literário. É o julgamento do valor artístico de cada obra específica a partir da apreciação com base num conjunto muito variável de critérios que pode vir a determinar  o que é perene e o  que é efêmero. Mas os critérios de apreciação de um blog não podem ser os mesmos das formas literárias impressas, já que o meio eletrônico pressupõe qualidades  que não fazem parte do universo literário usual, como o som, a inclusão de imagens diferenciadas ou em movimento.
Quanto tempo dura um blog? quanto tempo dura um diário? durarão o tempo que durarem as dúvidas, as críticas, as comparações, independentemente da efemeridade do contemporâneo e da certeza de que a exposição de um blog no ciberespaço não depende unicamente de seu escritor, mas de instâncias diferenciadas, como a do provedor, novas rotas da publicação de  textos.

BIBLIOGRAFIA
CANETTI, E. "Diálogo com o interlocutor cruel" in:---. A consciência das palavras. São Paulo: Companhia das letras, 2001. 
 FREIXAS, L. "Auge del diario intimo? en España" in: REVISTA DE OCCIDENTE: El                diario íntimo. Fragmentos de diarios españoles (1995 - 1996). Madrid: Fundación José Ortega e Gasset, n. 182 - 183, jul./ago. 1996. 159 p.
           LYOTARD,  J. F. O pós-moderno. 4 ed. Rio de Janeiro: José Olympio,1993.
           PENA, F. Teoria da biografia sem fim. Rio de Janeiro: Mauad, 2004.
     PERRONE-MOISÉS, L. Altas literaturas. São Paulo: Compania das Letras, 1998.
     ROCHA, C.  Máscaras de Narciso. Coimbra: Almeidina,1992.