segunda-feira, 21 de julho de 2014


    Blogs e diários: 
laços estreitos ou abismos insolúveis?  
                                                                                              Sheila Dias MACIEL 
                                                                                             
                                        

O escritor Elias Canetti admite que seria difícil levar adiante a sua produção se não escrevesse por vezes um diário ( cf. 2001, p.55). Além de Canetti, inúmeras pessoas confessam que a escrita periódica que se utiliza sobretudo de um material do cotidiano é uma necessidade e uma busca na seqüência da vida continuada. Se pensarmos nesta perspectiva, é a necessidade de anotar, de organizar o cotidiano e de narrar-se que está por trás, aparentemente, tanto da escrita tradicional em forma de diário quanto da contemporânea escrita de si em um espaço virtual.
Em primeira instância é a vontade de escrever que aproxima o escritor de diários do blogueiro. Cabe avaliarmos, portanto, a teoria clássica sobre os diários para compreendermos as relações entre ambos. Comparar, neste caso, exige cuidado, posto que o diário é uma forma narrativa dotada de estatuto próprio e com uma história de publicação consolidada. Trata-se de uma forma literária que tem nos diários de guerra e nos relatos de viagem sua forma ancestral, mas que começa a se fortalecer como gênero a partir do estabelecimento da sociedade burguesa e da difusão da noção de indivíduo, ou seja, quando, no Ocidente, o homem adquire a convicção histórica de sua existência. Aqui já começa a dificuldade em considerarmos os blogs como diários, visto que a curta história dos blogs ainda não está consolidada, apesar de vislumbrarmos seu fortalecimento vinculado à moda da exposição do "eu" e ao excesso de testemunhos que marcam a contemporaneidade e acabam por se tornar uma espécie de obstáculo para a História.
 Se, portanto, os diários surgem como um modo de fortalecimento histórico para o indivíduo, os blogs são uma forma de anti-história, ou melhor, uma conseqüência  do capitalismo tardio ou de consumo que nos encaminha para o desaparecimento do sentido de história e da fragmentação do tempo numa série de presentes perpétuos expostos à exaustão. A História estaria ameaçada pela superabundância de relatos.
Se através dos tempos os diários ficaram à margem da grande literatura, isto ocorreu, sobretudo, pela recepção cristalizada desta forma narrativa, ou seja, lia-se um diário de uma perspectiva única: a da verdade. Hoje cremos que não é o critério da verdade ou da relação com uma realidade extratextual reconhecível que deve apartar os diários das demais formas literárias ou servir de linha divisória para diários e blogs porque todo texto, independentemente do meio em que é publicado, trata-se de uma produção humana entrecortada de ficção. Além disso, tanto os blogs quanto os diários são uma resposta às grandes narrativas legitimadoras, formas que parecem não encontrar mais lugar na contemporaneidade, como defende J. F. Lyotard (1993, p.69).
 A periodicidade parece ser a única regra, ou seja, é preciso que o texto de diário contenha um caminhar apoiado no calendário, independentemente da possível construção desta aparência, que pode ser intrínseca à urdidura da ficção. A questão da periodicidade também está inclusa como característica da escrita de blogs, mas ao  tratarmos  de um conceito de periodicidade na rede, entra em jogo a idéia de atualização, já que os blogs são composições que precisam ser atualizadas, sobretudo diante dos comentários recebidos por outros navegantes que se aventurem pelas páginas expostas.
A questão que separa diários de blogs parece estar calcada tanto na idéia de texto final, já que um blog nunca fica pronto de fato e um diário publicado é um texto finalizado, quanto à recepção, que nos blogs ocorre quase simultaneamente, a interação é imediata.
 Apenas mais uma questão, além da menção à história consolidada do diário em face a história por ser construída dos blogs, mereceria vir à tona: a da publicação. Concebidos para serem uma espécie de "querido diário", os blogs têm como atrativo a facilidade de publicação, mas uma facilidade vinculada à inclusão do indivíduo na rede. O blog parece ser fruto de uma vivência específica, ou seja, trata-se de uma conseqüência da relação do indivíduo com a internet. Só escreve um blog quem tem acesso à internet, entra em um gerador de blogs, cadastra-se, concorda com os termos de participação apresentados, cria um nome de usuário e uma senha, preenche um formulário com seus dados, escreve, volta à página do gerador, digita seu nome de usuário e senha... preenche os passos exigidos.
No universo de interrogações formado pela comparação, podemos dizer que o diário é regido por um estatuto próprio que o caracteriza e o identifica como um gênero, enquanto que o blog ainda tem um estatuto para ser construído, mas os dois podem ser vistos como uma forma de relato, escrito retrospectivamente, em que um eu, com vida extratextual comprovada ou não, anota/digita, de uma maneira fracionada, um conteúdo muito variável, mas que singulariza e revela este eu-narrador,  para  que, de alguma maneira, obtenha o reconhecimento de sua existência.
 Segundo Laura Freixas, o diário é uma reflexão em primeira pessoa, enraizada na cotidianidade, sobre a condição humana e o sentido da vida  (1989:12). Reflexão permeada de sentido quando nos damos conta do desaparecimento do sentimento da história e da transformação da realidade em imagens. Se o diário sempre foi visto como uma marca  testemunhal, os blogs parecem ser escritos da perspectiva menos do testemunho que da exposição: 

"Não parece difícil concordar com a idéia de que, no ciberespaço, é possível assumir as mais variadas identidades: sexuais, religiosas, ideológicas, etc.  Na verdade, essas diferenças deixam de existir, pois não determinam as relações. Uma utopia igualitária viabilizada por uma suposta democracia digital. Mas essa completa indistinção já é, ela própria, uma proposta totalizadora" (PENA, 2004, p.78)

Conforme podemos avaliar, os blogs, dentro deste universo de cibercultura, são uma resposta em negativo da escrita de uma identidade, se a concebermos  como forma de reconhecimento do indivíduo. Em muitos casos, trata-se mais de uma exposição de um indivíduo mediada pela noção de espetáculo, "carregada de imagens preconcebidas, facilitando ainda mais a sedução" (PENA,2004, p.21). Sobretudo porque não pode haver testemunho onde não há identidade.
 Essas distinções, no entanto, são generalizações. Tanto a forma consagrada dos diários pode comportar textos escritos apenas para a exibição de si mesmo, sem "o salto proustiano para o universal" (PERRONE-MOISÉS,1998, p.178) quanto o texto exposto num blog pode conter  reflexões singularizadas de um "eu" em que o apuro da linguagem leva à idéia de arte.  Ao nos voltarmos para estas formas específicas, portanto, é nosso intuito não manter as distinções como foco principal, mas abrir espaço para um diálogo que se realize na História.


 O perene e o efêmero

                                             Quanto tempo duram as obras?
Tanto quanto ainda não estão completas.
Pois enquanto exigem trabalho, não entram em decadência.
                                  Bertold Brechet                                                              

Sobre a  permanência dos diários e blogs cabe tomarmos uma questão central: a do literário. É o julgamento do valor artístico de cada obra específica a partir da apreciação com base num conjunto muito variável de critérios que pode vir a determinar  o que é perene e o  que é efêmero. Mas os critérios de apreciação de um blog não podem ser os mesmos das formas literárias impressas, já que o meio eletrônico pressupõe qualidades  que não fazem parte do universo literário usual, como o som, a inclusão de imagens diferenciadas ou em movimento.
Quanto tempo dura um blog? quanto tempo dura um diário? durarão o tempo que durarem as dúvidas, as críticas, as comparações, independentemente da efemeridade do contemporâneo e da certeza de que a exposição de um blog no ciberespaço não depende unicamente de seu escritor, mas de instâncias diferenciadas, como a do provedor, novas rotas da publicação de  textos.

BIBLIOGRAFIA
CANETTI, E. "Diálogo com o interlocutor cruel" in:---. A consciência das palavras. São Paulo: Companhia das letras, 2001. 
 FREIXAS, L. "Auge del diario intimo? en España" in: REVISTA DE OCCIDENTE: El                diario íntimo. Fragmentos de diarios españoles (1995 - 1996). Madrid: Fundación José Ortega e Gasset, n. 182 - 183, jul./ago. 1996. 159 p.
           LYOTARD,  J. F. O pós-moderno. 4 ed. Rio de Janeiro: José Olympio,1993.
           PENA, F. Teoria da biografia sem fim. Rio de Janeiro: Mauad, 2004.
     PERRONE-MOISÉS, L. Altas literaturas. São Paulo: Compania das Letras, 1998.
     ROCHA, C.  Máscaras de Narciso. Coimbra: Almeidina,1992.


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