terça-feira, 14 de outubro de 2014

O que aprendi com meu pai 
Meu pai não é um homem  comum.  Também não é um pai comum.  Daí a dificuldade de falar dele ou de falar com ele. Meu pai me ensinou tantas coisas, mas teve de aprendê-las sozinho, sem uma mãe que cuidasse dele ou um pai que ajudasse nas lições de matemática. Mas ele nunca se queixou disso. Meu pai me ensinou sobre a lei da gravidade, sobre a reprodução dos ouriços, sobre a economia na idade média. Principalmente meu pai me ensinou a pesquisar, a ter curiosidade. Assim me fiz como eu sou. Indiretamente eu também aprendi a ter disposição com as crianças, a doar meu tempo para elas, se chover ou se fizer sol. No café da manhã ele sempre fazia para mim os bichinhos de massa de pão que eu pedisse. Irremediavelmente todos pareciam jacarés, sua especialidade, mas ele se esforçava para atender aos meus pedidos.
Sua linguagem era como ele, diferente: cabelo? Gafurina. Galinha: Penosa; Unidade de medida? Talagada. E todas as coisas pretas eram bretas. E o mundo corria conforme sua visão particular.
Eu conheci com ele todas as praias, todos os museus e todos os parques do Rio de Janeiro. Conheci também alguns restaurantes: o bacalhau da Lisboeta, as esfihas do centro da cidade, o frango do Rian e o Camarão à milanesa de um lugar que não me recordo mais, que ficou no passado, perdido. Agora ele está doente. Eu também estou. Porque para mim ele sempre foi forte e independente. Fragilizado, agora, mesmo assim se esforça para conversar comigo ao telefone e falar sobre o tempo. E pergunta para mim: você chega amanhã? Mesmo que eu esteja aqui tão longe!

Agora, passados dois anos de seu falecimento, continuo diariamente a me lembrar de seus ensinamentos, dos embróglios e das incontáveis passagens engraçadas ou mesmo inusitadas das quais participamos. O que me consola? Tenho certeza: ele está ensinando matemática para os anjos.
"Não morrem as flores, retornam ao invisível onde dormem as almas."


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