domingo, 28 de dezembro de 2014

Mães


Mães são difíceis. Isso é fato. Às vezes elas passam um trator por cima de nós em nome da nossa própria felicidade. Vá entender. Mas o que seria de nós sem elas? e o que seria de mim sem aquele poema dificílimo que minha mãe me fez decorar quando eu tinha cinco anos? o que seria de mim sem as fantasias de baiana, de bailarina, de cigana? os vestidos da Quadra 5? sem o olhar corretor sobre meus poemas? sem o Cozido espetacular nas noites de junho?
Para terminar, então, vou retroceder algumas (muitas) décadas e chegar até o  meu primeiro dia de aula na Escola Vitória, quando eu, com passos firmes, entrei sem uma lágrima sequer, vestida com aquele tradicional uniforme xadrezinho,  o nome gravado no bolso.
No meu colo, tão feliz quanto eu, minha boneca preferida trajava também um uniforme idêntico, com o nome dela, Taíssa, também bordado no bolso, as letras perfeitas, com aquele capricho que só as mães sabem ter.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014


Éramos seis


Estou enrolando para escrever esta derradeira história. E quando eu digo derradeira eu não quero dizer que seja a última, mas é a que fecha um ciclo da infância, quando éramos seis em volta de uma árvore presa na parede, cheia de bolas e enfeites que quebravam e luzes que piscavam; em torno de uma mesa, na copa, com as iguarias que "só a minha mãe sabe fazer". Nesta época nós éramos seis dentro de uma Rural branca e azul passeando por todas as praias, todos os parques e todos os museus do Rio de Janeiro. E quem mais no mundo teve um pai chamado Urbano que dirigia uma Rural? 
Não quero com isso dizer que a vida era maravilhosa. Não era. Mas éramos seis a tentar se acertar. Eu sei que só existem os paraísos perdidos. Eu sei que algumas cenas são senhas para a gente crescer, como me ensinou a minha amiga Ana Vera,  então vamos lá. 
O ano? 1979. Era Natal e chovia. Não sei até hoje porque meu pai não comprou nenhum presente de natal para nós, naquele ano. Minha mãe remediou a situação e providenciou o que foi possível. Eu ganhei uma boneca vestida de enfermeira, com estetoscópio, termômetro, injeção. Bem a calhar para enfrentar uma situação doentia. Meu pai ficou deitado no sofá, mas eu lembro que ela foi até ele e entregou, como um pedido de trégua, um pacote de presente, que ele agradeceu, com uma calça azul clara. Entramos 1980 com a separação efetuada. Vai então, se não me falha a memória, o último trecho do romance Éramos seis, da Maria José Dupré: "Grossas gotas de chuva caem do céu sobre a terra, sobre os telhados cor de cinza. Solidão."

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

 Palavras, palavras


Por estes dias de fim de ano eu parei para pensar nas palavras que só tem existência  em um contexto específico. Como, por exemplo, "próspero". Todo mundo deseja um próspero ano novo, nunca um próspero natal. Para natal não encaixa o "próspero", mas os adjetivos "feliz" e "bom", ou mesmo a expressão "cheio de paz". 
É como o "Açaí na tigela", por que ninguém come açaí na cumbuca? no pote? na travessa? Açaí é sempre na tigela.
Então vamos lá, Natal, para mim, combina com miríades e chávenas; com veludos e ósculos; inflorescências e baluartes, proscénios e saudades-perpétuas. 
Neste Natal, eu desejo votos de muito júbilo
e que você possa adjungir o que vai disperso pelo mundo: a vontade de ser feliz com o outro, para o outro (entenda o outro como o próximo), sem ficar conectado o tempo todo no inútil, enquanto o importante mesmo se esvai. 
Há alguns anos, talvez seja este o x da questão,  passei um natal com a família, gente difícil de encontrar para quem, como eu, mora no Mato Grosso. Ficamos todos na sala da casa da minha mãe, cada um vidrado no seu computador, tablet, celular... sem nem sequer uma palavra de conforto, de júbilo. Tudo perdido nas miríades de fios que se espalhavam, como serpentes, no espaço da minha solidão.

domingo, 14 de dezembro de 2014


Perdão, pai 
Não existe Natal sem frutas. Na minha infância, as ceias não ficavam completas sem abacaxi (com um pouco de vinho e açúcar); melancia, pêssegos e uma caixinha de uva niágara para enfeitar a mesa. Tudo simples, mas para nós era um banquete. Naquele tempo, a lichia, por quem sou apaixonadíssima, não existia no Brasil, mas é pensando nela que eu quero escrever menos uma história que um pedido de desculpas. Há alguns anos atrás, fomos visitar meu pai em Rio Novo, durante as festas. Eu, o Marcos, a Amanda e o Ivan. O carro estava lotado de bagagem porque viajar com crianças não é mole não. É edredon; é nebulizador, é boneca, é brinquedo, é colchonete... um deus nos acuda de tanta tranqueira necessária. No dia da partida, além de tudo aquilo e mais dois quadros enormes que meu pai mandou fazer para a gente (e que eu guardo com muito carinho porque me ensinam como ele podia ser carinhoso à maneira dele), veio o último presente: dois pés de lichia plantados em duas latas, mas já criados, coisa grande feito amor de mãe (ou de pai). Segundo fui informada, minha irmã Cristina disse para o meu pai que eu queria muito um pé de lichia. Ai meu Deus! Para tudo que eu quero descer! E lá fomos nós... imagina viajar mais de mil quilômetros sem poder mexer as pernas e com uma ramada verde entre você e o vidro. Não dava, gente. Eu bem que tentei. Antes de chegar em Juiz de Fora, eu pedi para parar o carro numa entrada de fazenda (Fazenda Santa Clara, se não me falha a memória) e então eu deixei as duas árvores lá, como quem deixa gêmeos na porta de alguém e vai embora com o coração em frangalhos sabendo que a vida nunca mais será a mesma depois daquele ato insano. A história não acaba aqui, no entanto. Daí para a frente, todas as vezes que falei com meu pai, por telefone ou ao vivo, ele me perguntou pelas lichias... e eu, covardemente, ia dizendo que elas iam bem, crescendo... desculpe pai, aí onde você estiver, eu menti por amor.
Tragédia de Natal 
Para quem é cardíaco ou não gosta de emoções fortes eu recomendo que interrompa a leitura. A cena é difícil. Aliás a diferença entre cena  e sumário é assunto pertinente para a teoria literária. O sumário faz um resumo dos fatos e a cena mostra a ação, o acontecimento. Vamos então começar pelo sumário. Nós moramos, por vários anos, no Catumbi, em um apartamento térreo. Nossas refeições eram feitas numa copa-varanda-área-de-serviço que ligava a cozinha a um pequeno jardim de cacos de cerâmica onde minha mãe cultivava suas plantas tão queridas. Essa copa era coberta por telhas tipo eternit transparentes e minha mãe sempre se aborrecia porque os vizinhos dos andares acima despejavam, sem muita cerimônia, todo tipo de porcaria em nosso telhado. Aliás, os anos 70 no Brasil produziram uma infinidade de dejetos que ainda hoje as comissões tentam esclarecer, mas isso é outra história. Ou é a mesma história, mas vista por outro ângulo. O fato é (agora entra a cena) que era Natal. E como eu já expliquei, sempre chove no Rio para atrapalhar a travessia do Papai Noel. Chovia torrencialmente (vamos transformar o espaço em ambiente) e no exato instante em que a minha mãe colocou a panela fumegante de Bacalhau à (moda) Gomes de Sá na mesa da copa, as telhas (será que eternit vem de eterno?) se romperam e uma cascata de água suja escorreu intrépida exatamente para dentro da panela. Ah... preciso dizer, num conto,  o clímax muitas vezes está colado ao desfecho. Então, é isso, se aguentou a cena, boa noite.

sábado, 13 de dezembro de 2014




Coisas de Natal

Olha, gente, eu preciso dizer uma coisa sobre mim que eu sempre tento esconder. É sobre as minhas escolhas. Quando estou diante do efêmero, do passadiço, dos itens de curta duração, já sei de antemão que vou errar. Tudo começou, se não me falha a memória, quando eu tinha onze anos e saí com minha mãe para comprar uma roupa para o Natal. Pegamos o ônibus e fomos para a Praça Saens Peña, no antigo Shopping 45,  numa loja do térreo. A vendedora apresentou como opção um macaquinho amarelo ouro com zíper na frente e eu saí da loja com o troço, achando que tinha feito uma compra legal. Para combinar, peguei emprestado um par de meias amarelas e azuis, da Cristina, que usei com a minha fantástica melissa furadinha. Não tenho uma foto daquela noite, mas ficou a sensação de que eu não dou mesmo para isso. Para completar, fui com o meu irmão Carlos até o Andaraí para buscar a namorada dele, Anna Lya. Como  acontece em todo Natal, no Rio, caiu o maior pé d'água e eu ainda escorreguei na lama. Fazer o quê? já tinha escorregado bem antes, no gosto. E estes pequenos tropeços, como uma sina, são partes da minha história...

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Algumas lembranças natalinas III


Nas minhas casas da infância sempre tivemos árvore de natal, mas nem sempre presépios. Talvez por isso eu tenha me deslumbrado com o imenso presépio da casa da Alexandra. A primeira vez que o vi foi no apartamento térreo da rua Sabará. Ele ocupava toda a extensão de um longo aparador estilo Luís XV que tinha sido da avó da Alexandra, minha amiga desde sempre. Parece que o início do presépio também seguia essa genealogia... algum lugar no interior do Rio, onde o avô era médico, quando a dona Zenith, mãe da Alexandra, era ainda uma menina feliz.
Voltemos ao presépio que era um deslumbre: tinha manjedoura, tinha reis magos, tinha pastores, árvores, camelos, elefantes, zebras, coqueiros, um lago feito de espelho com inúmeros patinhos nadando, flores e plantas ao redor e o personagem principal, gente desculpa, não era o menino Jesus, que só apareceria no dia 25 mesmo. O personagem principal era um p.o.r.q.u.i.n.h.o. Sim, mas não era qualquer leitão sem graça. O porquinho róseo era uma simpatia, um amor, uma coisa rica. O melhor porquinho de presépio de todos os tempos. Daí que a Carmem, amiga da casa, avisou sem cerimônia: eu vou roubar o porquinho... Deste dia em diante sempre havia alguém vigiando, cada um de nós virou sentinela de porquinho de presépio ameaçado, jurado de sequestro. Isso foi há muitos anos atrás, nunca soube se a Carmem levou a termo essa "presepada". Eu sei que o presépio ainda está lá e vai continuar mesmo depois de nós, guardando para si a multidão de admiradores que sempre existirá, com ou sem porquinho. Aliás, ele não está só lá, está também comigo, na melhor memória daqueles tempos.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Mensagem Natalina II


Eu me lembro de um Natal em Rio Preto quando eu era bem pequena. Vejo meu avô quebrando muitas castanhas naquela copa antiga da casa que era grande como um mundo a ser descoberto. Escuto, por detrás da densa névoa que tenta encobrir a memória, como uma chuva, a voz da minha mãe explicando para alguém: -A Sheila gosta de avelãs. A Sheila sou eu.
Depois de tantos anos, ainda hoje, nada nunca me fez procurar avelãs mais do que nozes ou castanhas, mas sendo alguém que prefere avelãs eu me tornei gente. E gente que tem preferências, é sabido. E sendo alguém eu aprendi que a gente se descobre pelo olhar do outro. Muito do que eu aprendi sobre mim veio de considerações de quem estava próximo de mim. Também em Rio Preto, em umas férias, quando eu tinha já dez anos, durante um lanche na casa da dona Clara, falei com meus primos sobre uns livros que tinha lido. Minha tia (agora sogra) disse para todos: gostaram da aula de literatura? E assim me fiz e assim me tornei. Professora de literatura, e que prefere avelãs.

domingo, 7 de dezembro de 2014


Mensagem de fim de ano

Olha aí um novo natal. Mais um. Menos um. Queria mesmo é lembrar das coisas que não posso esquecer. As árvores de natal da minha infância, feitas a muitas mãos como uma obra de arte interativa. O cheiro de boneca nova. A bola nova do Sergio que eu tinha de chutar para ele ser o goleiro. O sangue do diabo do estojo de química do Carlos. Os pedidos sempre descolados da Cristina, como foi aquele relógio de pulso feito de acrílico laranja. São tantos os pedacinhos deste mosaico natalino, pequenos gestos, coisas de família. O suco de vinho. As rabanadas. O tio Antenor lavando  louça na Heitor Carrilho, cantando um velho sucesso da Aracy de Almeida.
O pacote de presente embaixo da árvore que cada um ficava imaginando o que seria. E o que será, agora? O que será do Natal?
E olha eu aqui montando uma árvore enquanto o Dedé "ajeita" o meu presépio. E olha aí eu pensando num presente para a sobrinhada. Cada um como uma pequena parcela do cartão de natal que guardo comigo na memória, esta memória que não está pronta, que não é definitiva e que vai se recompondo a cada natal, fixando o tecido único que é a vida que formamos estando juntos, se juntos estivermos. As cenas. Os risos. O cheiro bom da comida.