terça-feira, 16 de dezembro de 2014


Éramos seis


Estou enrolando para escrever esta derradeira história. E quando eu digo derradeira eu não quero dizer que seja a última, mas é a que fecha um ciclo da infância, quando éramos seis em volta de uma árvore presa na parede, cheia de bolas e enfeites que quebravam e luzes que piscavam; em torno de uma mesa, na copa, com as iguarias que "só a minha mãe sabe fazer". Nesta época nós éramos seis dentro de uma Rural branca e azul passeando por todas as praias, todos os parques e todos os museus do Rio de Janeiro. E quem mais no mundo teve um pai chamado Urbano que dirigia uma Rural? 
Não quero com isso dizer que a vida era maravilhosa. Não era. Mas éramos seis a tentar se acertar. Eu sei que só existem os paraísos perdidos. Eu sei que algumas cenas são senhas para a gente crescer, como me ensinou a minha amiga Ana Vera,  então vamos lá. 
O ano? 1979. Era Natal e chovia. Não sei até hoje porque meu pai não comprou nenhum presente de natal para nós, naquele ano. Minha mãe remediou a situação e providenciou o que foi possível. Eu ganhei uma boneca vestida de enfermeira, com estetoscópio, termômetro, injeção. Bem a calhar para enfrentar uma situação doentia. Meu pai ficou deitado no sofá, mas eu lembro que ela foi até ele e entregou, como um pedido de trégua, um pacote de presente, que ele agradeceu, com uma calça azul clara. Entramos 1980 com a separação efetuada. Vai então, se não me falha a memória, o último trecho do romance Éramos seis, da Maria José Dupré: "Grossas gotas de chuva caem do céu sobre a terra, sobre os telhados cor de cinza. Solidão."

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