domingo, 14 de dezembro de 2014


Perdão, pai 
Não existe Natal sem frutas. Na minha infância, as ceias não ficavam completas sem abacaxi (com um pouco de vinho e açúcar); melancia, pêssegos e uma caixinha de uva niágara para enfeitar a mesa. Tudo simples, mas para nós era um banquete. Naquele tempo, a lichia, por quem sou apaixonadíssima, não existia no Brasil, mas é pensando nela que eu quero escrever menos uma história que um pedido de desculpas. Há alguns anos atrás, fomos visitar meu pai em Rio Novo, durante as festas. Eu, o Marcos, a Amanda e o Ivan. O carro estava lotado de bagagem porque viajar com crianças não é mole não. É edredon; é nebulizador, é boneca, é brinquedo, é colchonete... um deus nos acuda de tanta tranqueira necessária. No dia da partida, além de tudo aquilo e mais dois quadros enormes que meu pai mandou fazer para a gente (e que eu guardo com muito carinho porque me ensinam como ele podia ser carinhoso à maneira dele), veio o último presente: dois pés de lichia plantados em duas latas, mas já criados, coisa grande feito amor de mãe (ou de pai). Segundo fui informada, minha irmã Cristina disse para o meu pai que eu queria muito um pé de lichia. Ai meu Deus! Para tudo que eu quero descer! E lá fomos nós... imagina viajar mais de mil quilômetros sem poder mexer as pernas e com uma ramada verde entre você e o vidro. Não dava, gente. Eu bem que tentei. Antes de chegar em Juiz de Fora, eu pedi para parar o carro numa entrada de fazenda (Fazenda Santa Clara, se não me falha a memória) e então eu deixei as duas árvores lá, como quem deixa gêmeos na porta de alguém e vai embora com o coração em frangalhos sabendo que a vida nunca mais será a mesma depois daquele ato insano. A história não acaba aqui, no entanto. Daí para a frente, todas as vezes que falei com meu pai, por telefone ou ao vivo, ele me perguntou pelas lichias... e eu, covardemente, ia dizendo que elas iam bem, crescendo... desculpe pai, aí onde você estiver, eu menti por amor.

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