domingo, 14 de dezembro de 2014

Tragédia de Natal 
Para quem é cardíaco ou não gosta de emoções fortes eu recomendo que interrompa a leitura. A cena é difícil. Aliás a diferença entre cena  e sumário é assunto pertinente para a teoria literária. O sumário faz um resumo dos fatos e a cena mostra a ação, o acontecimento. Vamos então começar pelo sumário. Nós moramos, por vários anos, no Catumbi, em um apartamento térreo. Nossas refeições eram feitas numa copa-varanda-área-de-serviço que ligava a cozinha a um pequeno jardim de cacos de cerâmica onde minha mãe cultivava suas plantas tão queridas. Essa copa era coberta por telhas tipo eternit transparentes e minha mãe sempre se aborrecia porque os vizinhos dos andares acima despejavam, sem muita cerimônia, todo tipo de porcaria em nosso telhado. Aliás, os anos 70 no Brasil produziram uma infinidade de dejetos que ainda hoje as comissões tentam esclarecer, mas isso é outra história. Ou é a mesma história, mas vista por outro ângulo. O fato é (agora entra a cena) que era Natal. E como eu já expliquei, sempre chove no Rio para atrapalhar a travessia do Papai Noel. Chovia torrencialmente (vamos transformar o espaço em ambiente) e no exato instante em que a minha mãe colocou a panela fumegante de Bacalhau à (moda) Gomes de Sá na mesa da copa, as telhas (será que eternit vem de eterno?) se romperam e uma cascata de água suja escorreu intrépida exatamente para dentro da panela. Ah... preciso dizer, num conto,  o clímax muitas vezes está colado ao desfecho. Então, é isso, se aguentou a cena, boa noite.

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