quinta-feira, 23 de abril de 2015

Duas horas em breve.
                Estás deitada, talvez.
Na noite,
                como um Oka de prata
                             a Via Láctea corre.
O tempo é meu, e os relâmpagos
               que eram meus telegramas,
não mais te virão
               despertar,
                                 atormentar.
Como se diz:  encerra-se o incidente.
A canoa do amor
               foi-se quebrar de encontro ao quotidiano.
Eis-me quite contigo.
               E é inútil o passar em revista
penas,
               azares,
                                 e recíprocas feridas.
Vê,
               que paz no universo.
A noite
                impôs ao céu
                                  a servidão de tantas
                                                  tantas estrelas.
Chegou a hora
                em que a gente se ergue e em que fala
aos séculos,
                à História,
                               ao universo...


vladimir maiakowski
autobiografia e poemas
trad. carlos grifo babo
presença
1974
Hoje eu estou cansada de gente que trata cachorro como gente. De gente que trata gente como cachorro. Estou cansada de gente que confunde aparência com felicidade. De gente que não se conforma. De gente que é conformada demais. Hoje eu estou cansada de ser gente. De ser eu. De ser.
A maior vergonha de todas
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Esta história se passa em outros tempos, quando os supermercados armazenavam as nossas compras em sacolas de papel. No Rio, a rede de supermercados mais tradicional se chamava Casas da Banha. Hoje, aos nossos ouvidos tão acostumados com siglas e estrangeirismos, este nome pode parecer dissonante, mas na época era normalíssimo, garanto.
Era provavelmente uma quinta-feira e eu e minha irmã tínhamos ido ao apartamento de nosso pai. Ele fizera um peixe assado (peixe fresco era sempre comprado na feira, às quintas) e depois do almoço fomos pegar o ônibus para voltar para casa, no Grajaú. Aí ele encheu uma sacola de mercado com mais peixe, frutas e uma dúzia de laranjas. É claro que eu e minha irmã, com nossas botas apache e longos cabelos negros, não queríamos levar sacolas no ônibus... mas meu pai falou e estava falado. Era assim naquele tempo.
Fomos.
Entramos no ônibus e colocamos a sacola discretamente no chão, bem no cantinho. A gente se distraiu com a viagem e até esqueceu, mas aí, de repente, uma profusão de laranjas começou a rolar pelo ônibus: ele fazia uma curva para a direita e lá iam as laranjas, o ônibus freava e as laranjas corriam para a frente, insubordinadas. Quando a gente se deu conta, todo o povo do ônibus estava recolhendo as laranjas e passando para a frente, dizendo: -É daquelas duas ali! A gente disfarçava e dizia que não era não e o povo reforçava: -É delas sim!
Imagino que o chão do ônibus estivesse molhado e por isso a sacola de papel tenha se rompido. Acho até que neste delírio fui eu que criei a antiecológica sacola de plástico, hoje tão maldita. Não sei, mas lembro ainda hoje da vergonha que sentimos, reforçada pelas bobagens de ser adolescente. Ainda assim, sobrevivi para lembrar da propaganda: CB, Casas da Banha, muito mais você!

sexta-feira, 3 de abril de 2015

EU TROQUEI...

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Eu troquei
O meu trono de rei
por um dia na lua

Eu troquei
Uma casa que flutua
      por uma praia de areia

Eu troquei
O lálálá da sereia
por uma namorada quieta

Eu troquei
Minha bicicleta
      por um carrinho de mão

Eu troquei
A solidão da ilha perdida
        por uma pista de corrida

Eu troquei
A vida que tinha antes
por mares nunca dantes navegados

Eu troquei
Perdidos e achados
por mil e uma noites

Eu troquei
Uma gaita de fole
por folia de bumba meu boi


Eu troquei
 piquenique em Paquetá
por olhar de bolo de fubá


Eu troquei
Minhas bolinhas de gude
por uma tarde de ventania



Eu troquei de fantasia
depois de muita risada


E aprendi que a vida sem troca
É como bola furada,
fogueira apagada,
carro sem roda:
Uma droga,

Não serve pra nada.