quinta-feira, 23 de abril de 2015

A maior vergonha de todas
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Esta história se passa em outros tempos, quando os supermercados armazenavam as nossas compras em sacolas de papel. No Rio, a rede de supermercados mais tradicional se chamava Casas da Banha. Hoje, aos nossos ouvidos tão acostumados com siglas e estrangeirismos, este nome pode parecer dissonante, mas na época era normalíssimo, garanto.
Era provavelmente uma quinta-feira e eu e minha irmã tínhamos ido ao apartamento de nosso pai. Ele fizera um peixe assado (peixe fresco era sempre comprado na feira, às quintas) e depois do almoço fomos pegar o ônibus para voltar para casa, no Grajaú. Aí ele encheu uma sacola de mercado com mais peixe, frutas e uma dúzia de laranjas. É claro que eu e minha irmã, com nossas botas apache e longos cabelos negros, não queríamos levar sacolas no ônibus... mas meu pai falou e estava falado. Era assim naquele tempo.
Fomos.
Entramos no ônibus e colocamos a sacola discretamente no chão, bem no cantinho. A gente se distraiu com a viagem e até esqueceu, mas aí, de repente, uma profusão de laranjas começou a rolar pelo ônibus: ele fazia uma curva para a direita e lá iam as laranjas, o ônibus freava e as laranjas corriam para a frente, insubordinadas. Quando a gente se deu conta, todo o povo do ônibus estava recolhendo as laranjas e passando para a frente, dizendo: -É daquelas duas ali! A gente disfarçava e dizia que não era não e o povo reforçava: -É delas sim!
Imagino que o chão do ônibus estivesse molhado e por isso a sacola de papel tenha se rompido. Acho até que neste delírio fui eu que criei a antiecológica sacola de plástico, hoje tão maldita. Não sei, mas lembro ainda hoje da vergonha que sentimos, reforçada pelas bobagens de ser adolescente. Ainda assim, sobrevivi para lembrar da propaganda: CB, Casas da Banha, muito mais você!

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