quarta-feira, 19 de agosto de 2015



O QUE EU DESCOBRI SOBRE MIM INDA AGORINHA

Nestes muitos anos de convívio forçado comigo mesma, aprendi algumas coisas: eu não curto estampa de coqueirinhos nem manga morcego. Não encaro Sarrabulho nem Sarapatel. Não gosto de discutir sobre preço de bolsas nem sobre o de carros. Acho um saco encontro só de mulheres bem como devem ser aqueles estritamente masculinos. Gosto de cabelo despenteado. Tenho certeza que encontrarei melhores soluções num trabalho de alguém que diz que está uma droga do que naqueles que o redator afirma de antemão que está perfeito. Ah... eu gosto das cores de terra e de pistache. Gosto de chuva (quem não gosta, nessa secura?). Troco qualquer coisa por frutos do mar. Leio por necessidade de diálogo. Amo lichia, fruta de conde e caqui. O que ainda posso dizer sobre mim mesma neste exato momento é que a perda inexorável da minha capacidade reprodutiva vem me trazendo um corte profundo na alma. Perder não o filho que ainda quero ter, mas a capacidade de gerar. A sensação que engendra. O amor. Ultimamente não posso ver uma vitrine de roupas de bebê sem suspirar. Viver o fim cem vezes. O poente. A periferia. Quem entende isso? Ultimamente eu tenho sentido essa solidão povoada de personagens russos que passeiam por dentro de mim como nas estepes, nas tempestades de neve, agarrando-se ao capote recém comprado. Irinas, Yuris, Dimitris, Natashas, Nicolais. Todos aqui. São eu. Vão comigo. Para onde? shei lá. Continuo. Estendo-me. Abro cortes profundos nas seringueiras e vou descobrindo seivas, searas. Eu quero viver as relações sem ter de discuti-las. Não. É mentira. Eu quero discutir as relações para vivê-las. E para não dizer que eu não falei de flores, os lírios, principalmente eles. Amarylis. Lisiantos. Violetas. Tantas alegrias repartidas comigo, teluricamente. Meu pequeno canteiro de ervas, onde me faço eva, me reinvento ao contrário do asfalto que sempre habitei. Aqui. Meu Andrei Meu Ivan Minha Amanda. Três terços da plenitude improvável. E o vazio preenchido das lembranças. Eu sou minhas perdas. E ganhos. Sinto falta dos meus alunos e do batalhão de almas com o qual eu aprendi a dividir-me. A doar-me. A conversa ininterrupta sobre os desvãos e saltos do literário. Nesta procura pela vida, inda agorinha descobri-me. Eu sou alguém que anda passando tão rápido por mim! Nem dá tempo para uma conversa de comadres. Os cabelos brancos. O estudo da confissão. E esta, agora, que deitei aos teus/meus olhos para me dizer de mim. Sou essa. Sou assim. Enquanto vivo a duração deste segundo que já termina. 

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